TERRA DO ARCO-ÍRIS
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| Imagem retirada da Internet |
Na Terra do Arco-Íris
Reina grande confusão;
Com arrebitado nariz,
Estão as cores em discussão!
O velho arco-celeste
Foi chamado à reunião.
Querem ouvir o sábio mestre
Pra decidir quem tem razão!
«Sou atraente e fundamental
– Argumenta o amarelo –,
Sou puro, único, especial!
Quem pode ser mais singelo?
Vivo em toda a Natureza,
Tamanha é a minha beleza!
Vivo em quadros famosos,
Até em animais venenosos!
Vivo na ilustre Casa Amarela,
Van Gogh assim o desejou,
Nos girassóis que tanto amou,
Na flor que brotou na viela.»
Retorquiu muito enfurecido
O impetuoso vermelho.
Também ele era querido
E deixava-lhes um conselho:
«Cores do arco da aliança,
Ouçam bem, com atenção!
Não há cor de maior confiança
Do que a do meu coração!
Sou hemácia, sangue e vida,
Planeta vermelho, estrela gigante.
Por ti tudo faço, minha querida,
Dou-te o rubi e a rosa brilhante!
Fruto vermelho, tão desejado!
Pintura pré-histórica, caçada.
Vestido escarlate, encarnado,
Fogo, pôr-do-sol, amada!
Sou papoila, cravo, paixão,
Glamour, tapete, sedução,
Antídoto contra a solidão,
Assim sou eu, furacão!»
Já cansado deste discurso,
Interrompeu o azul irritado:
«Mas isto é algum concurso?
– Questionou em tom desolado.
Possuo sangue azul, sou aristocrata.
Represento a ordem e a harmonia.
Sou céu e mar, fina flor, a nata!
Até tenho bandeira, quem diria!
Os meus olhos são safiras,
Tão belas e preciosas!
Não sou dado a mentiras,
Gosto de mãos generosas!
Encontrei Picasso na solidão,
No cinema também passei,
Na lagoa azul da paixão
A quem tanto me dediquei!
Que seria do planeta sem mim,
Da Terra do Arco da Chuva?
Seria com certeza o seu fim,
Assento-lhe como uma luva!»
Pediu o arco-íris que findasse
Pra que o laranja também contasse
Os seus vastos feitos gloriosos,
Pois todos estavam curiosos.
«Nem sei por onde começar,
Depois de tanto ouvir falar!
Caros senhores, não sou mestre,
Mas também não sou agreste!
Sou doce como o mel silvestre,
Como a abóbora, nutritivo,
Em dia de bruxas extraterrestre,
Mas sempre vosso amigo!
Gosto da laranja sumarenta,
Sou a alegria e a simpatia,
Quero viver até aos noventa,
Com muita, muita energia!
Sei que não sou essencial,
Como o vermelho e o amarelo,
Nem aristocrata ou celestial,
Mas não torno o mundo mais belo?»
O verde, até então muito calado,
Deitou mais achas na fogueira:
«Vivo na planície, no montado,
Na imensa floresta e na clareira.
Nas árvores e nas flores:
Carvalhos, pinheiros, figueiras,
Hortênsias, azáleas, roseiras
Das belas ilhas dos Açores.
A esperança trago comigo,
Pra te dar equilíbrio, amigo!
Renasço a cada primavera,
Nas folhas do Aloé Vera.
Azeitona, chá, hortelã,
Esmeralda, olivina, maçã;
Verdes de inveja já estão,
Ou superam a competição?»
E logo o violeta respondeu:
«Vivo, como tu, no arco deste céu,
Tenho nome de flor singela,
Sou ametista, serena e bela.»
E o anil continuou, aborrecido:
«Não sou melhor, nem pior,
Só não sou tão conhecido,
Mas nem por isso sou inferior.
Anil para uns, para outros índigo,
Nome de planta e de corante,
Da cor azul sou muito amigo,
Mas nem por isso arrogante.»
Pediu a palavra o arco-celeste
E a todas as cores se dirigiu:
«Cuidado, amigas – e repetiu,
A arrogância é uma peste!
O futuro está na vossa mão,
Fruto do vosso afeto e união;
Se uma cor do arco desaparecer,
Poderá esta terra não sobreviver.
Vermelho, laranja e amarelo,
Verde, azul, anil e violeta,
Convosco tudo parece tão belo,
Lutem por um fraterno planeta!»
E assim terminou a confusão
Entre as cores do arco do céu;
Viveram sempre em comunhão
E nunca mais houve escarcéu.
Regina Dias
Concurso Nacional de Poesia/Conto Contra o Racismo, 2013

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